Prefeito veta apoio da Prefeitura aos Legendários, mas mantém data oficial do movimento em Goiânia

POR Marcos Paulo | 10/07/2026
Prefeito veta apoio da Prefeitura aos Legendários, mas mantém data oficial do movimento em Goiânia
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O movimento Legendários voltou ao centro do debate em Goiânia após o prefeito Sandro Mabel (União Brasil) sancionar parcialmente a lei que institui o Dia Municipal dos Legendários. A principal mudança foi o veto ao trecho que autorizava a Prefeitura a promover, apoiar e divulgar atividades ligadas ao grupo. A decisão reacendeu discussões sobre liberdade religiosa, laicidade do Estado e os limites da atuação do poder público diante de organizações privadas de inspiração cristã.

 

A proposta, de autoria do vereador Thialu Guiotti (Avante), mantém a criação da data comemorativa, que será celebrada anualmente em 7 de dezembro. O veto atingiu apenas o artigo que permitia à administração municipal participar institucionalmente das ações promovidas pelo movimento.

 

Embora o debate tenha sido associado ao uso de recursos públicos, o dispositivo vetado ia além da questão financeira. O texto autorizava a Prefeitura a oferecer apoio institucional, como cessão de espaços públicos, divulgação em canais oficiais, suporte logístico, participação de secretarias municipais em eventos e realização de campanhas em parceria com os Legendários.

 

Na justificativa enviada à Câmara Municipal, Sandro Mabel afirmou que a Constituição assegura a liberdade religiosa, mas determina que o Estado brasileiro seja laico. Segundo o prefeito, isso impede que o poder público favoreça ou promova institucionalmente uma organização de caráter religioso.

 

O Executivo destacou ainda que, apesar de o movimento estar registrado com atividade econômica voltada ao treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial, os próprios Legendários se definem como um "movimento cristocêntrico interdenominacional que serve à Igreja". Para a Prefeitura, essa característica aproxima a organização de uma atuação confessional, o que exige cautela na utilização da estrutura pública.

 

Outro argumento apresentado é que a Constituição permite colaboração entre o Estado e entidades religiosas apenas quando houver interesse público devidamente comprovado, situação que, segundo o parecer jurídico utilizado pelo município, não ficou demonstrada neste caso.

 

O prefeito também sustentou que compete exclusivamente ao Poder Executivo definir como serão executadas ações, programas e campanhas da administração pública. Dessa forma, uma lei de iniciativa parlamentar não poderia impor obrigações ou determinar que a Prefeitura desenvolvesse atividades em favor de um grupo específico.

 

Com a decisão, permanece apenas a criação do Dia Municipal dos Legendários. O movimento continua livre para realizar retiros, encontros e demais atividades na capital, mas sem autorização legal para receber apoio institucional da Prefeitura.

 

Debate começou na Câmara

 

A proposta gerou discussões desde o início da tramitação na Câmara Municipal.

 

Autor do projeto, o vereador Thialu Guiotti defendeu que o reconhecimento oficial valoriza um movimento que, segundo ele, contribui para o fortalecimento das famílias, da liderança masculina e da transformação pessoal. O parlamentar afirmou que milhares de participantes relatam mudanças positivas após os retiros promovidos pela organização e que a iniciativa vai além da dimensão religiosa ao incentivar responsabilidade, disciplina e convivência familiar.

 

Em sentido contrário, a vereadora Aava Santiago foi uma das principais críticas da proposta. Para ela, o Estado deve preservar sua neutralidade religiosa e evitar o reconhecimento institucional de organizações confessionais. A parlamentar argumentou que respeitar a liberdade religiosa é diferente de utilizar a estrutura administrativa para promover um movimento de inspiração cristã.

 

Durante os debates, Aava também alertou para a possibilidade de criação de precedentes, caso outras organizações religiosas passem a reivindicar tratamento semelhante por parte do poder público.

 

O parecer da Procuradoria-Geral da Câmara reforçou parte desses questionamentos e acabou sendo utilizado como um dos fundamentos para o veto parcial do prefeito.

 

Quem são os Legendários

 

Criado em 2015, na Guatemala, pelo pastor José "Chepe" Putzu, o movimento Legendários tem como objetivo promover transformação espiritual, emocional e familiar por meio de desafios físicos, fortalecimento da fé e desenvolvimento da liderança masculina.

 

A organização se define como um movimento cristocêntrico interdenominacional, reunindo participantes de diferentes igrejas cristãs, principalmente evangélicas.

 

Nos últimos anos, o grupo registrou forte crescimento no Brasil, especialmente após a pandemia de Covid-19. Segundo informações divulgadas pela própria organização, o movimento está presente em dezenas de países e reúne centenas de milhares de participantes.

 

Em Goiás, os retiros atraem homens de Goiânia, Aparecida de Goiânia, Anápolis, Rio Verde e diversas cidades do interior.

 

Como funcionam os retiros

 

O principal evento do movimento é o TOP (Track Outdoor de Potencial), retiro realizado durante quatro dias em áreas de natureza.

 

A programação reúne caminhadas, desafios físicos, atividades em grupo, palestras, estudos bíblicos e momentos de reflexão voltados ao fortalecimento da disciplina, da liderança, do autocontrole e dos vínculos familiares.

 

Uma das características do retiro é a orientação para que os participantes não revelem detalhes das atividades desenvolvidas. Segundo os organizadores, a medida busca preservar a experiência de quem participará futuramente. Esse aspecto, no entanto, também desperta questionamentos de familiares e críticos do movimento.

 

Cobrança pelos retiros também pesou no veto

 

Outro ponto mencionado pela Procuradoria-Geral da Câmara e pelo Executivo é o modelo de funcionamento financeiro da organização.

 

Os retiros dos Legendários são pagos, com valores que variam conforme a edição, a estrutura oferecida e o estado onde o evento é realizado.

 

Para a Prefeitura, a existência de cobrança reforça a necessidade de cautela quanto ao uso da estrutura pública para apoiar institucionalmente uma organização privada que realiza atividades remuneradas.

 

O parecer jurídico também destaca que os eventos são promovidos por uma entidade privada e mediante pagamento, circunstância que afasta a presunção de atuação exclusivamente filantrópica.

 

Apesar da polêmica, o veto não impede a atuação dos Legendários em Goiânia. O movimento poderá continuar promovendo seus encontros normalmente, mas sem apoio institucional da administração municipal.

 

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