Gemini
O Brasil ocupa, há quase duas décadas, uma posição alarmante no cenário internacional: segue como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Ao mesmo tempo, o país também aparece de forma recorrente entre os maiores consumidores globais de pornografia trans, segundo levantamentos de grandes plataformas de conteúdo adulto e relatórios de organizações de direitos humanos.
A coexistência desses dois dados — alto consumo e extrema violência — escancara uma contradição social marcada por hipocrisia, fetichização e exclusão estrutural, que impacta diretamente a vida de travestis e mulheres trans em todo o território nacional.
De acordo com a nona edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil manteve a liderança no ranking global de assassinatos de pessoas trans, mesmo com uma redução no número absoluto de mortes. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos, uma queda de cerca de 34% em relação ao ano anterior, que contabilizou 122 casos.
Apesar da diminuição, o relatório alerta que a violência segue estrutural. O número de tentativas de homicídio aumentou, indicando que a redução não representa, necessariamente, maior segurança para essa população.
Entre os estados, Ceará e Minas Gerais lideraram os registros mais recentes, com oito assassinatos cada. A Região Nordeste concentrou o maior número de mortes (38), seguida pelo Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6).
Outro dado preocupante é a interiorização da violência: cerca de 67% dos assassinatos ocorreram fora das capitais, em cidades do interior, onde o acesso a políticas públicas, redes de proteção e serviços especializados é mais limitado.
O levantamento aponta que a maioria das vítimas é composta por travestis e mulheres trans jovens, com maior incidência entre 18 e 35 anos. Pessoas negras e pardas, em situação de vulnerabilidade socioeconômica, são as mais atingidas, reforçando o recorte racial e de classe que atravessa a violência transfóbica no país.
Dados históricos da Antra, que analisam o período entre 2017 e 2025, mostram que São Paulo é o estado com maior número absoluto de mortes, somando 155 registros no intervalo.
Em contraste com esse cenário de violência extrema, o Brasil também ocupa posição de destaque no consumo de pornografia trans. O país aparece como líder nesse tipo de busca desde 2016, segundo dados do RedTube, permanecendo entre os principais mercados de plataformas como PornHub e XVideos.
Termos relacionados a pessoas trans figuram entre os mais buscados globalmente. No Brasil, palavras como “travesti” e variações nacionais somam milhões de visualizações, com vídeos que ultrapassam dezenas de milhões de acessos nas principais plataformas.
Relatório divulgado pelo PornHub aponta que, em 2023, a pornografia trans registrou crescimento de 75% nas buscas globais, alcançando a sexta posição entre as categorias mais pesquisadas no mundo. Em 2024, termos relacionados a transgênero representaram 1,97% de todas as buscas globais, com Brasil, Argentina e Colômbia liderando proporcionalmente o interesse.
Dados demográficos indicam que homens são significativamente mais propensos a buscar pornografia trans do que mulheres. O interesse aumenta com a idade: usuários acima de 55 anos apresentam maior probabilidade de consumo, enquanto jovens entre 18 e 24 anos demonstram menor incidência.
No ranking geral de consumo de pornografia, o Brasil avançou posições e passou a ocupar o quarto lugar mundial em tráfego, atrás apenas de Estados Unidos, México e Filipinas.
Especialistas e ativistas apontam que os dados revelam uma contradição profunda: enquanto corpos trans são altamente consumidos e fetichizados no ambiente digital, essas mesmas pessoas seguem expostas à violência extrema no cotidiano.
O cenário evidencia a urgência de políticas públicas efetivas, educação sexual, combate à transfobia e fortalecimento de redes de proteção. A queda pontual no número de assassinatos não elimina o fato de que o Brasil permanece como o país mais letal para pessoas trans no mundo, ao mesmo tempo em que lidera o consumo de conteúdos que exploram seus corpos como objeto de desejo.
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