Foto: Nasa
Um estudo da Universidade de Pequim voltou a ganhar repercussão nas redes sociais ao apontar que a rotação do núcleo interno da Terra pode ter desacelerado de forma significativa e até passado por uma inversão de sentido. O tema já havia sido destacado pela CNN Brasil em janeiro de 2023.
A pesquisa foi conduzida por Yi Yang, pesquisador associado da Universidade de Pequim, e Xiaodong Song, professor da mesma instituição. Para chegar às conclusões, os cientistas analisaram ondas sísmicas de terremotos registradas desde a década de 1960, observando sinais que atravessaram o núcleo interno em trajetórias semelhantes ao longo do tempo.
A estrutura da Terra é composta pela crosta, pelo manto e pelos núcleos externo e interno. O núcleo interno, que é sólido, fica a cerca de 5.100 quilômetros de profundidade. Ele é separado do manto pelo núcleo externo líquido, o que permite que sua rotação ocorra em velocidade diferente da rotação do planeta.
Com raio de quase 3.500 quilômetros, o núcleo terrestre tem dimensões próximas às de Marte. Ele é formado principalmente por ferro e níquel e concentra cerca de um terço da massa total da Terra.
Segundo os autores, os resultados surpreenderam. Até 2009, os registros sísmicos mostravam mudanças ao longo do tempo. A partir daí, porém, os dados passaram a apresentar poucas variações, o que, na interpretação dos pesquisadores, sugere que o núcleo interno quase interrompeu seu movimento de rotação.
No estudo, os cientistas afirmam ter identificado sinais de que o núcleo interno “quase cessou sua rotação na última década” e pode estar passando por um processo de reversão. Xiaodong Song destacou que entre 1980 e 1990 havia alterações claras nos registros, cenário diferente do observado entre 2010 e 2020.
Os pesquisadores explicam que a rotação do núcleo interno é influenciada pelo campo magnético gerado no núcleo externo e também por efeitos gravitacionais do manto. Entender esse comportamento pode ajudar a esclarecer como essas camadas profundas interagem e como funcionam os processos internos do planeta.
Apesar disso, o tema ainda é alvo de debate na comunidade científica. O geofísico Hrvoje Tkalcic, da Universidade Nacional Australiana, que não participou da pesquisa, afirmou que o núcleo interno não para completamente. Para ele, o estudo indica que essa camada estaria mais sincronizada com o restante da Terra do que há uma década, quando girava de forma um pouco mais acelerada.
Tkalcic também ressaltou que não há qualquer sinal de evento catastrófico relacionado ao fenômeno. Na avaliação dele, a análise apresentada pelos autores é consistente, mas as conclusões precisam ser interpretadas com cautela.
Yang e Song defendem que a desaceleração e possível inversão podem fazer parte de um ciclo de cerca de 70 anos. De acordo com os cálculos da dupla, uma mudança parecida teria ocorrido no início da década de 1970.
Já Tkalcic avalia que esse ciclo pode ser mais curto, entre 20 e 30 anos. O pesquisador destaca que ainda são necessários novos dados e métodos mais avançados para compreender com maior precisão o comportamento do interior da Terra.
Segundo ele, o grande desafio está justamente na profundidade em que esses fenômenos acontecem. Como o núcleo está localizado a milhares de quilômetros abaixo da superfície, os cientistas dependem de métodos indiretos, como a análise sísmica, para investigar o que ocorre no interior do planeta.
Para o geofísico, o trabalho de quem estuda essas estruturas se assemelha ao de médicos que tentam examinar órgãos internos com equipamentos limitados. Por isso, embora haja avanços importantes, a imagem sobre o interior da Terra ainda é incompleta e segue em fase de descoberta.
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